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    sábado, julho 28, 2007
    Junkiebox #4

    (Colaboraram: Nat, Bêr e Luden)

    Manic Street Preachers - Send Away The Tigers: Tudo indicava o fim da banda: lançamento de coletâneas, compilação de b-sides, e ainda projeto solo dos integrantes. Pois se enganou quem pensou que esse seria o fim. Após três anos de férias, o Manic Street Preachers se reúne para a gravação do oitavo disco da banda. E que disco! “Send Away The Tigers” reúne o melhor da banda: rock, refrões grudentos, letras politícas, e muita distorção. Além de tudo, uma das melhores canções do disco, “Your Love Is Not Enough”, tem a participação de Nina Gordon (The Cardigans). E, por enquanto, pode ser considerada uma das melhores (e mais grudentas) músicas do ano.
    Ouça: Your Love Is Not Enough

    Smashing Pumpkins - Zeitgeist: Com o fim da banda, anunciado em 2000, já não havia mais esperanças da volta, como houve com o Manic Street. Durante essa longa parada, Billy Corgan até chegou a montar outra banda e seguir carreira solo, mas nada que se compare ao Pumpkins. “Zeitgeist” aparece depois de 7 anos sem Smashing Pumpkins. Têm canções fortes, gritadas, guitarras pesadas, aquela pegada na bateria, e a voz inconfundível de Corgan. Um disco considerado político, com direito a Paris Hilton na capa do single “Tarantula”. No mínimo curioso, não? Não é o melhor disco do Smashing Pumpkins, mas é um bom disco para marcar o retorno de uma banda. Vale conferir as b-sides também, que são tão boas (ou até melhores) que algumas canções do disco.
    Ouça: Doomsday Clock

    The Shins - Wincing The Night Away: Sam (Natalie Portman) no filme “Hora de Voltar” (“Garden State”) disse: ”The Shins vai mudar a sua vida”. Se não mudou, é porque você ainda não ouviu esse terceiro disco da banda. “Wincing the Night Away” começou bem: estreou na segunda posição na lista semanal dos discos mais vendidos da Billboard, isso porque o álbum já havia vazado na internet em outubro do ano passado. Confesso que não me apaixonei pelos dois primeiros álbuns da banda. Mas esse álbum me fez rever alguns conceitos sobre os outros. Melodias agradáveis, violão na medida certa, canções simples e viciantes: um pop elegante que pode conquistar qualquer um.
    Ouça: Sea Legs

    Patti Smith – Twelve: Em se tratando de Patti Smith, pode ter certeza que é coisa boa e respeitável. Afinal, não é todo dia que uma mulher revoluciona o rock. Dessa vez, após 30 anos de carreira, Patti Smith faz belíssimas interpretações de algumas músicas que marcaram época. O disco começa com “Are You Experienced”, seguida por “Everybody Wants to Rule the World”, um cover bem parecido com o original, o que decepcionou quem esperava versões diferentes. O disco tem covers do Stones, Neil Young, Paul Simon, The Doors... e Nirvana! Em “Smells Like Teen Spirit”, Patti troca a guitarra distorcida de Kurt Cobain por um banjo. Yes! Um banjo... e ficou muito bacana por sinal. “Twelve” é um bom álbum. Corajoso da parte de Patti, já que muitos criticam como “ela está velha e não tem mais canções novas...”. Mas pra que se preocupar com isso? Patti Smith não deve provar mais nada a ninguém.
    Ouça: Smells Like Teen Spirit

    Wilco – Sky Blue Sky: Os bons ventos não pareciam soprar na face de Jeff Tweedy e cia. depois que o tecladista e guitarrista Jay Bennet - um dos principais responsáveis pela sonoridade da banda – abandonou o barco, fato este que deixou a banda em uma fase menos inspirada. E daí saiu o álbum menos experimental e menos country da banda. Sem se apegar tanto a Neil Young, o Wilco acabou soltando um trabalho extremamente pop e bastante sofrido, usando como referência principal os Beatles. Há um novo gás no Wilco, isso é fato. Mesmo tendo algumas das letras mais fortes já escritas por Jeff, os fantasmas do disco anterior parecem acalmar. Do primeiro segundo de “Either Way” ao último acorde de “On and On and On”, de rocks quase-nervosos feito “Shake It Off” e “Hate It Here” a baladas acústicas como “What Light”, o ouvinte encontrará um dos discos mais emocionais e acessíveis dos últimos anos.
    Ouça: Sky Blue Sky

    Paul McCartney – Memory Almost Full: Definitivamente não é todo dia que temos um lançamento novo de um grande astro e gênio do Rock. Paul McCartney é um dos únicos desses sobreviventes que lança mais álbuns de estúdio que discos ao vivo. E o mais impressionante: com uma qualidade mais inacreditável ainda! Portanto, “Memory Almost Full” é motivo de comemoração. Um dos mais inspirados da carreira solo de Paul, lançado oportunamente na semana em que “Sgt. Peppers” completa 40 anos. Paul passa pelo rock pesado e dançante de “Only Mama Knows”, baladas leves ou densas, soa meio psicodélico em “House Of Wax” e “You Tell Me”, meio anos cinqüenta na dobradinha “Vintage Clothes” e “That Was Me”, faz um pop perfeito à lá Beach Boys em “Feet In The Clouds”... É uma gama de canções assustadora. Rei que é rei nunca perde a majestade, e Paul soube envelhecer muito bem e fez um discaço dos bons, variado, cheio de boas idéias, sempre olhando para frente, um senhor de 65 anos fazendo músicas que soam totalmente século 21! Paul nem precisa mais provar que é gênio, mas faz questão... Obrigado por tantas lágrimas e sorrisos vertidos em música, Macca!
    Ouça: Feet In The Clouds

    White Stripes – Icky Thump: Para quem achava que depois de um disco menos inspirado (“Get Behind Me Satan”) e aventuras de Jack White na excelente banda paralela The Racounters, os White Stripes estavam com os dias contados: podem voltar a sorrir (ou perder as esperanças, no caso dos detratores).O duo de garagem mais incomum, nostálgico e moderno do pedaço volta em preto-e-branco, já impressionando o ouvinte desde a faixa-título que abre o álbum, cheia de momentos graves e reviravoltas distorcidas. O quarteto transpira pop, distorção, inventividade e simpatia a cada acorde disparado, daí nascem pérolas como as pedradas “Bone Broke” e “Little Cream Soda”, o agressivo e indignado pop “You Don’t Know What Love Is (You Just Do As You’re Told)”, os grooves suculentos que explodem em uma bordoada rápida em “Rag & Bone”, a balada pulsante “A Martyr For My Love For You” e a obra prima “Conquest”, um misto de rock pesado com música caribenha, solos de trompete e Jack se despinguelando no refrão. Um dos melhores discos do ano, sem dúvida alguma.
    Ouça: Conquest

    Tori Amos – American Doll Posse: A cantora-compositora Tori Amos desde o início dos anos 90 mantém uma respeitável carreira solo. Mas parece que a nova década não vinha fazendo bem para a cantora, pois fora o bom disco de covers “Strange Little Girls”, “Scarlet’s Walk” caminhava entre canções marcantes e outras facilmente esquecíveis, e “The Beekeper” era, em sua grande maioria, bastante apagado. Ainda bem que envelhecer consiste em aprender com os próprios erros. Pela grande quantidade de canções, “American Doll Posse” tem um problema parecido com o de “Scarlet’s Walk”, mas as variadas idéias musicais da cantora salvam o disco da onda de marasmo. O fácil apelo pop de “You Can Bring Your Dog”, o peso roqueiro contrastando com lindas melodias de piano de “Teenage Hustling”, as ensolaradas “Secret Spell”, a forçuda “Body and Soul” e a lindíssima “Beauty Of Speed” já são motivos para ouvir esse disco sem medo de decepção. Tudo bem que não é sempre que a paciência é suficiente para ouvir um disco de 23 músicas, mas versatilidade é o que não falta aqui.
    Ouça: Teenage Hustling

    Interpol - Our Love To Admire: Esse terceiro álbum do quarteto de Nova York não traz nada de novo. Não surpreende, mas também não deixa a desejar. "Our Love To Admire" não é melhor que o primeiro cd da banda, "Turn On The Bright Lights", mas supera o seu antecessor, "Antics". Álbum que não mostra rumo novo, mas mostra que estão longe de se tornar apáticos, um ótimo terceiro trabalho.
    Ouça: Rest My Chemistry

    Art Brut - It's a Bit Complicated: Se você quer um cd pra ouvir quando está feliz indo pra praia, indo pro parque bater uma bolinha com os amigos, "It's a Bit Complicated", do Art Brut é uma ótima pedida. Não supera a fanfarronice bem feita do album anterior "Bang Bang Rock and Roll" mas não deixa de ser bom pra ouvir e gritar as letras, mais faladas que cantadas.
    Ouça: Pump Up The Volume

    Elliott Smith - New Moon: Elliott Smith se matou em outubro de 2003. Se ainda estivesse vivo, muitas das músicas desse álbum poderiam estar em algum álbum novo que ele fizesse. O cd tem 24 músicas, e conta com uma versão de "Miss Misery" só com a voz e o violão. Ótimo cd pra sentir saudade de Elliott.
    Ouça: Angel In The Snow

    Superguidis - A Amarga Sinfonia do Superstar: Muitas horas ouvindo Pavement, pés ba bunda e cotidiano foram alicerces para definir o som do Superguidis, banda de Guaíba e de Porto Alegre ( o guitarrista Lucas Pocamacha é de Porta Alegre e os outros integrantes de Guaíba) lança seu segundo album pelo Senhor F com algumas músicas dos singles anteriores, como "Ainda Sem Nome" e "Riffs" (que é uma música bônus nesse cd) e inéditas. O álbum mantém o mesmo estilo do outro, com a mesma animação e letras engraçadas. Grande banda sulista, uma das melhores do nosso país hoje em dia.
    Ouça: A Exclamação

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    posted by billy shears at 11:25 PM | 10 comments

    domingo, julho 22, 2007
    Led Zeppelin II - Led Zeppelin

    É simplesmente indiscutível: Led Zeppelin foi uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Não há como negar, duvidar, argumentar contra ou afins. É clássica justamente por isso: é referência, é o máximo que conseguiram alcançar em muitos quesitos. Nenhuma banda que use guitarras e tenha vindo depois deixa de beber dessa fonte, direta ou indiretamente; mas, sinceramente, isso tudo não vale uma merda. O importante, proporções de magnitude à parte, é que mais ninguém conseguiu fazer com o blues, o folk e o rock and roll tradicional o que quatro dos melhores artistas do mundo fizeram. Sim, porque era uma banda simplesmente perfeita de acordo com os padrões do que é considerado “uma banda boa”. Talvez o melhor baixista de sua época, John Paul Jones tocava baixo elevando-o à posição de instrumento de destaque e não mero elemento de marcação. Led Zeppelin levou os solos de baixo de volta à tona. John Bonham é considerado por alguns o melhor baterista de todos os tempos, fazendo as batidas parecerem um espírito dentro das canções. Robert Plant criou a voz do hard rock setentista, com um tom agudo que parecia às vezes a própria voz da guitarra. E Jimmy Page, bem, ele simplesmente era os acordes da guitarra transformados em homem. Um dos melhores guitarristas de todos, e ponto final.

    Depois de um disco de impacto – não para a crítica, infelizmente –, em que o blues rock chegou bem perto de se tornar heavy metal puro de altíssima qualidade, entraram numa turnê devastadoramente eletrizante, com performances no palco cruas e, por falta de palavra melhor, violentas, em um sentido musical. O segundo disco deles, que tem o título simples de Led Zeppelin II, reflete isso. Mas não, não é uma gravação rústica à la proto-punk, longe disso. É blues rock do melhor, com pitadas do que viria a ser o heavy metal, riffs incríveis, letras mais complexas e, resumidamente, o virtuosismo pleno do rock.

    Um riff realmente cortante, um baixo que joga a cabeça para baixo e uma letra bluesy que acompanha todo o delírio: “você precisa esfriar isso/baby, não ‘tô brincando/vou te mandar/de volta à escola”. Sim, não faz muito sentido, e isso também é digno de nota: o rock estava perdendo o desleixo de seus primórdios. Aqui, em “Whole Lotta Love”, eles resgatam as canções simples e diretas, mas sem perder a complexidade. Aliás, não é pouco complexa uma canção com um verdadeiro orgasmo sonoro feito de sons do theremin, guitarra, baixo, sussurros etc., para logo depois a guitarra e todo o peso voltarem com uma energia que escorre pelas caixas de som. Um verdadeiro esporro.

    O baixo entra logo após a voz de Plant, que canta sobre um amor não correspondido carregado de imagens líricas e fantasiosas, e as cordas vão desenhando um fundo para essa história, até o refrão chegar e haver uma explosão de barulhos para todos os lados. “What is and What Should Never Be” é magnífica. Além da melodia, puramente bela, tem uma vibração completamente rock ‘n’ roll, que leva o ouvinte a uma viagem com vários cenários...

    Delta blues: é isso, “The Lemon Song” é uma das maiores homenagens ao blues feito no Mississipi. Até a letra, tipicamente descrevendo um amor à la bluesmen, do tipo “eu deveria ter de deixado há muito tempo”, tem versos tirados de “Killing Floor”, de Howlin’ Wolf, e “Travelling Riverside Blues”, de Robert Johnson (ambos altamente recomendáveis). Apesar de algumas seções serem mais lentas, os solos de guitarra aqui são estupendos, e o baixo continua sua velocidade à toda, plenamente audível, enquanto a bateria é esmurrada sem dó. Entre calmaria e fúria, nasce uma canção maravilhosa, desde os vocais até os instrumentos. É o blues em evolução plena.

    Cordas leves tocando fazem a introdução de “Thank You”, talvez a música mais bela em sentidos líricos do Led Zeppelin. Com uma letra simplista – simplista, não boba –, os vocais soam serenos, enquanto declaram amor eterno: “se o sol se recusar a brilhar/eu ainda estarei lhe amando/quando montanhas ruírem ao mar/ainda haverá eu e você”. OK, foi Jimi Hendrix que idealizou as montanhas ao mar e o sol se recusando a brilhar, na canção “If 6 Was 9”, mas Plant transformou essas meras figuras em um tratado sobre o amor entre um homem e uma mulher. Enquanto o órgão de Jones vai apagando como uma respiração, a música acaba. É a música perfeita para se ouvir apaixonado.

    Outro blues, isso, yeah. Um riff absurdamente foda, que faz a guitarra saltar entre os rugidos de Plant, que canta sobre um verdadeiro quebrador de corações, um “Heartbreaker”, como no título. Aqui o destaque é a guitarra, completamente influenciada pela maneira de se tocar do blues, com direito a um dos melhores solos de mister Page: cordas arrebentadas em formato a capella, numa improvisação (!) que, segundo alguns, inspirou Eddie Van Halen a tocar. Um verdadeiro estouro, velocidade plena, até voltar ao blues do começo, para terminar repentinamente, entre uma recuperada de fôlego e outro. Inacreditável.

    Caralho, mais um riff destruidor. “Living Loving Maid (She’s Just a Woman)” é hard rock puro, dos mais poderosos. Não por isso ele deixa de ser rápido e virtuoso. A letra, agora, é mais uma das simples e aparentemente fúteis, falando da tal dama que, no fim das contas, “é só uma mulher”.

    De batidas leves e acordes calmos nasce “Ramble On”, verdadeira viagem lírica, entupido de referências a O Senhor dos Anéis, com as tradicionais explosões de energia. Apesar do tema “medieval”, a melodia é folk rock puro, com vários instrumentos de corda sendo tocados ao mesmo tempo, num verdadeiro fluxo de sons. Apesar dessa estranha combinação, é uma canção muito, muito boa, daquelas que se toca algumas vezes seguidas quando é descoberta.

    Moby Dick” é um instrumental incrível, inicialmente mais guiado pelo riff – muito bom, p’ra variar – do que pela percussão, mas que logo se percebe ser um verdadeiro show de baterias, pandeiros e feeling. Isso, claro, até começar a suíte, o solo de bateria de John Bonham, que faz com que as batidas se tornem cada vez mais primordiais, algo realmente próximo do tribal, para depois lhes dar uma rapidez e uma multiplicidade que nos remete aos nossos próprios batimentos cardíacos, cada vez mais fortes. Logo depois, as guitarras novamente se entrelaçam ao baixo para terminar uma das melhores faixas instrumentais do rock.

    E, uou, isso é puramente blues. “Bring It on Home” engana, principalmente por ser em grande parte um cover de Sonny Boy Williamson II, composta por Willie Dixon. Desde a gaita, até a linha de baixo, passando pelo vocal assustadoramente negro, é um blues clássico. Mas então, de repente, as guitarras berram e a bateria é estraçalhada violentamente, para que a última música do disco seja não só um blues rock, mas um misto deste com o hard rock puro e cru. A letra continua a ser bluesy e simples, mas a interpretação de cada um dos membros da banda termina o álbum em grande estilo, cada um destilando toda sua capacidade musical em riffs, toques, batucadas, solinhos etc. Tão repentinamente quanto veio, essa seção veloz dá lugar à gaita do começo, e o disco acaba, um segundo antes do ouvinte exclamar “merda, acabou”.

    É o disco máximo do Led Zeppelin, é um clássico indubitável. É aqui que o hard rock começa a ser realmente definido. Hendrix pode ter chegado perto, os Who também, e um pouco de toda aquela cena de grupos de blues como o Cream, os Yardbirds etc., mas quem realmente definiu o estilo foi Led Zeppelin e seu disco “II”. Depois dele, quase ninguém conseguiu fazer música rápida sem ouvir isso. Uma obra-prima, caso raro em que absolutamente todas as faixas são indispensáveis. Sinto falta de novos clássicos assim...

    posted by gabo faria at 7:13 PM | 7 comments

    domingo, julho 15, 2007
    Ira! - Psicoacústica


    Missão difícil ser o Ira!. Destoando desde cedo de grande parte do levante oitentista de rock - um exército de bandas que não trazia nada de novo e preocupava-se em fazer uma versão brasileira e hedonista de Smiths, The Cure, The Police e U2 - ao buscar suas referências em The Who, Jam, The Clash, Television e Hüsker Dü, ou seja, um som mais direto, primitivo e garageiro, com letras mais conscientes, amadurecidas e inquietas. Começaram a escrever o seu próprio capítulo na história do Rock com os LPs "Mudança de Comportamento" e "Vivendo e Não Aprendendo", emplacando vários hits como "Núcleo Base", "Pobre Paulista", "Gritos na Multidão" e "Envelheço na Cidade" - o maior clássico da banda, conhecido até por não-roqueiros, e também atraindo inimizade da crítica da época, que incensava as cópias tupiniquins de pós-punk.

    Mas o que fazia o Ira! um grupo apenas diferente agravou-se no disco seguinte. Mesmo com os Titãs e Paralamas do Sucesso deixando as chupações de lado e investindo em fórmulas mais ambiciosas e rebeldes, uma das poucas bandas que lançaram um disco que pode ser considerado "de vanguarda" no Brasil foram os meninos da Rua Paulo - na voz selvagem de Nasi, na guitarra com contornos de Jimi Hendrix, Jimmy Page e Mick Jones (The Clash) tocada por Edgar Scandurra, no baixo de Ricardo Gaspa e na bateria de André Jung. O ano, 1988. O nome? "Psicoacústica".

    A capa do disco era totalmente estranha para os padrões da época - ao invés de músicos com roupas extravagantes ou ar blasé, via-se uma espiral verde e vermelha, que fazia efeitos com óculos 3-D. A estranheza só foi competida pelo brutal homem gritando em "Cabeça Dinossauro", o disco de rock cavernoso dos Titãs e pelo menino descabelado usando trapos no meio da selva em "Selvagem?", o disco dos Paralamas do Sucesso que traçou conexão entre o pop de grande circulação e o reggae, ska e ritmos regionais brasileiros. As letras eram fortes, chocantes, polêmicas e muitas continuam incomprendidas até os dias de hoje. E o som... Com uma ousadia que poucas bandas daqui tiveram.

    O disco já mostra ser diferente desde a primeira música, "Rubro Zorro". Iniciada com uma bateria seca e na lata, a música ganha contornos de trilha sonora, com o baixo golpeando os ouvidos como machadadas no córtex. Após vozes de introdução, Nasi começa a cantar sobre o mais famoso psicopata brasileiro, o Bandido da Luz Vermelha. "O caminho do crime o atrai/Como a tentação de um doce", canta o vocalista sobre uma pessoa comum que começou a cometer uma série de crimes horripilantes, até ser calado pela justiça. Mas segundo a letra, tal tática não funcionará, pois maníacos estão vindo de todas as partes. E é aí que temos uma performance guitarreira monstruosa por parte de Edgard Scandurra, um solo onde podem ser sentidas as gotículas de suor escorrendo pela pele do guitarrista, ao detonar a parte mais intensa da música. A parte mais bruta e forte de mais de quatro minutos de pura tensão.

    Quando se fala em bandas e discos de vanguarda, uma das bandas mais imediatamente lembradas é o Velvet Underground; pois bem, aqui apresento para os leitores a "Sunday Morning" brasileira, e recebe o nome de "Manhãs de Domingo". Um coral com ares clássicos inicia um rock furioso em que o vocalista canta "Nas manhã de domingo/Parece que todos olham para você/Atravessando as ruas/Sem olhar pros faróis", com uma cozinha pulsante e guitarras gritando quando Nasi não canta. Mesmo quando descamba em compassos lentos, a música ainda transpira um clima de paranóia e inquietação onipresente do primeiro ao último segundo.

    "Poder, Sorriso, Fama" é uma crítica explícita ao mundo do showbizz. Em um ritmo cadenciado que cresce e explode em guitarras imediatistas e se retrai em vocais inconformados, dizendo que público e mídia não se preocupam em entender o que se passa dentro da cabeça de alguém famoso, apenas querem sugar sua essência o máximo possível. E são esses mesmos fãs e essa mesma mídia tão atenciosa são os primeiros a darem tiros pelas costas dos famosos que não vivem apenas seguindo o jargão do título, que o eu lírico considera bastante decadente e efêmero ao alternar "fama" com "lama".

    As críticas continuam furiosas, e com o perdão do trocadilho, iradas. Temos agora a lenta "Receita Para Se Fazer Um Herói" que hora flerta levemente com ritmos jamaicanos, ora ganha guitarras e batidas graves e intensas, alcançando um clima new-wavista, até ganhar um trompete bastante influenciado por jazz no seu final. Irônica e parodiando os programas de receitas, a banda dá os ingredientes e o modo de fazer um perfeito herói: pegue um homem feito nós, torne sua carne saborosa e desejada, adicione fome e ódio... E sirva ele morto na mesa. Aí você tem um perfeito mártir para que a geração presente e as futuras idolatrem alguém apenas porque a pessoa morreu no auge da fama, pouco se preocupando em entender o artista, apenas por uma atitude cool e blasé.

    "Pegue Essa Arma" tem uma das introduções de baixo mais sombrias já gravadas, compartilhando espaço com uma excelente e vibrante sessão percussiva. Então entram as dramáticas guitarras, nos fazendo imaginar um confronto violento. Scandurra prova o porque de ser um dos melhores (e talvez o melhor) guitarrista que já pisou em solo nacional com riffs, solos e distorções de deixar o ouvinte boquiaberto. A bateria de Jung estoura aos nossos ouvidos enquanto Nasi e Edgar compartilham fortes versos como "Sua cegueira mais e mais me complica/Se sua roupa vale mais que a comida" e "Tiro Ianque para cima/Me acertou na testa". "O terceiro mundo vai explodir! Quem estiver sem sapato não sobra!" grita uma voz aterrorizante. "Pegue essa arma! Pegue essa arma! Pegue essa arma!", berra Nasi em resposta. A música termina mortalmente ao Nasi afirmar novamente sobre o tiro levado.

    Podem ficar irritados o quanto quiser com o Ira!, mas é isso aí; uma das bandas de Rock mais emblemáticas da nossa história compôs uma música que leva o singelo nome "Farto do Rock And Roll". Um riff hard rocker abre a canção, e o ritmo da percussão parece uma tempestade ritmada de socos. Talvez o hard rock mais sério já feito, o Ira! chuta os bagos do comodismo, do tédio, do conformismo e da alienação que atinge grande parte do público roqueiro. Por não conseguir enfrentar os próprios problemas, o eu-lírico simplesmente se acomoda e vai assistir a um show de rock. Ao invés do solo, Scandurra mete um scratch de rap e Jung batuca latas, procurando, como a própria letra afirma, outros sons, outras batidas, outras pulsações. "Fim de semana sim/Fim de semana não/Às vezes tudo bem/Às vezes sem razão/JÁ ESTOU FARTO DO ROCK AND ROLL".

    "Advogado Do Diabo" é a mais curta do álbum, e musicalmente uma das mais exóticas: o encontro do samba com Nasi dando uma de MC. Soturnas melodias compartilham lugar na música, sintetizando praticamente o disco inteiro, um ataque aos males da vida moderna. E a todos que acusam o Ira! de escreverem sobre psicopatas, criticarem um dos ritmos de música mais populares do mundo, esculhambar com o show business e a sociedade, Nasi responde: "Me diga promotor/O seu tempo já passou/Quem é o vilão dessa história?". O tribalismo de alguns momentos só combina com o refrão "Atire a pedra no pequeno/Mas um dia você vai se queimar". Se o propósito é não deixar pedra sobre pedra, a banda cumpre o papel com maestria.

    E o álbum encontra o final com "Mesmo Distante", mostrando o único momento mais sentimental do álbum. Sobre cordas e efeitos dignos das bandas que tocaram em Woodstock, o eu-lírico reflete, dizendo que uma hora o álbum teria de ser engolido e digerido: "Se você sabia das razões/Que eu tinha pra voltar/Hoje sabe por que não fiquei/Por que não fiquei". Engolido pela lisergia da capa e da sua última canção, o disco some tão misterioso quanto começou.

    Chega o fim de um dos discos mais injustiçados e incompreendidos da história do Rock. A banda nunca conseguiu chocar tanto de novo. "Psicoacústica" é, por muitos méritos próprios, o disco definitivo do Ira!, onde a banda explorou todos os seus limites, expressou toda a sua insatisfação, e se distanciou do punk rock paulistano ao invés de questionar os efeitos do capitalismo sobre a classe operária, passou a questionar os efeitos do capitalismo sobre o ser humano em si. Mesmo que estejam fartos dele, esse é o espírito do rock: o caráter libertador, contestador, revolucionário e incoformado.

    Enfim, muitas palavras já foram ditas sobre esta obra-prima e cabe ao leitor decidir se tomará a obra como um dos discos mais corajosos e originais que uma banda já resolveu gravar, ou se, assim como a maior parte do público que gosta do Ira! apenas de passagem, o considerará comida entalada na garganta. O fato é que depois deste álbum e outros que primavam pela insatisfação e revolta com o marasmo, a música pop nacional nunca mais foi a mesma. Para melhor ou para pior.

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    posted by billy shears at 11:35 PM | 7 comments

    segunda-feira, julho 09, 2007
    The Smiths - The Queen Is Dead


    Principalmente na história da música pop, as coisas não são criadas do nada. Cada ritmo novo, cada ousadia nova, cada ícone novo existe para a maior parte da população por causa de um propulsor. Se os Beatles transformaram rock and roll em arte com "Sgt. Peppers...", é porque no ano anterior os Beach Boys os desafiaram com todas as orquestrações e musicalidade perfeita de "Pet Sounds". Quando os Sex Pistols chocaram com suas atitudes e verborragia de "Nevermind The Bollocks...", os Ramones já haviam definido os alicerces sonoros que os Pistols usariam para cuspir na cara da rainha. E se nos anos 80, quando o U2 lançou "The Joshua Tree", dando lugar na lírica ao sentimentalismo e altruísmo ao invés do hedonismo e destaque para as melodias de guitarra ao invés dos sintetizadores da new wave, um ano antes os britânicos The Smiths encheram um álbum de guitarras, críticas sociais, introspecção e poesia. A rainha cuspida seria então morta.

    Formados em Manchester pelo vocalista e letrista Steven Patrick Morrissey e o guitarrista Johnny Marr, os Smiths pareciam recuperar uma imagem que tinha sido perdida há muito tempo. O encontro das guitarras elétricas com o lirismo, dos instrumentistas rebeldes e selvagens com uma voz intensa e dramática. Acompanhados do baixista Andy Rourke e do baterista Mike Joyce, os Smiths já moviam polêmicas desde o início por falar sobre homossexualidade e vegetarianismo em suas letras, e também serem acusados de incentivar assassinato e pedofilia. Mas o golpe final ainda estava por vir. No ano de 1986, os Smiths lançariam seu terceiro álbum, cheio de raiva contra o sistema vigente inglês regido com mão de ferro por Margareth Tatcher, onde o eu-lírico de Morrissey vive em um mundo pútrido que não tem medo de denunciar. O álbum afirma, "The Queen Is Dead". O fim da nobreza, da falsa ilusão de uma Inglaterra que supostamente tinha um alto nível de vida, ou motivos para orgulho.

    Um álbum com essa inscrição e a figura de um nobre morto (na verdade, uma foto de 1965 do ator Alain Delon), já parece denunciar o que vem por aí - este foi um álbum daqueles que mudaram o curso da história da música contemporânea, da quebra com a corrente principal da música, mas tudo familiar nos refrões marcantes e na voz carismática do vocalista. Buscando inspiração no punk setentista e no mais básico rock dos anos 50 e 60, o álbum ainda causa uma forte impressão aos ouvidos por confrontar tantos sentimentos com os ouvidos do ouvinte - solidão, desesperança, tristeza, depressão... Se na década anterior a blasfêmia ocorria por meio do esporro, aqui são os climas desoladores e sufocantes que ditam as regras de um jogo que os anos 80 já sabiam terem perdido, e não adiantava ignorar, como a New Wave e o Hair Metal faziam, nem lamentar sobre, como o pós-punk fazia. Em cada verso se constatava que os Smiths foram uma das bandas-símbolo do grande vazio, dos protestos de paz e abertura das portas da percepção que, no final, deram apenas em filhos tristes que encontravam em homens como Morrissey, Robert Smith e Ian Curtis uma pessoa com quem se identificar em um mundo de deuses acima de nossos reles problemas.

    Abrindo com um coral zombeteiro de vozes que logo é suprimido pela bateria, temos então a faixa título, "The Queen Is Dead", onde desde o início já se mostra o talento como riffman de Johnny Marr e a ótima voz de Morrissey declamando a letra que parece descrever a cena que deu resultado na capa do disco. Um mundo decadente, onde Mozz questiona a sexualidade do príncipe Charles, desafia e insulta a realeza, passa por garotos de nove anos vendendo drogas, bares que viciam e Igrejas que tomam até o último centavo dos fiéis. "A rainha está morta, garotos", declara o vocalista, "e é tão solitário no purgatório"...

    "Frankly, Mr. Shankly" abandona a condição de pop mórbido da anterior e investe em um andamento de reggae, com destaque para o baixo de Andy. Mas Mozz não poupa o ouvinte de sua ironia ácida. Em pouco mais de dois minutos, o vocalista corajosamente ataca o mundo do show business dizendo que quer se tornar uma estrela da música e do cinema, dizendo que não quer ser mais qualquer um, mas ainda assume que a sua vida medíocre o torna mais feliz que uma vida de corrompidos valores que é o mundo das celebridades.

    Pisando no freio, agora temos "I Know It's Over", uma angustiada balada sustentada por um ritmo lento e doces melodias, elemento sobre os quais Morrissey deita a voz para dar uma interpretação magistral. Sua emocionada voz critica a futilidade das pessoas, questionando "se você é tão engraçado, inteligente, atraente... por que você está sozinho esta noite?". Ele clama o nome da mãe ao sentir o peso do mundo caindo sobre as suas costas e os instrumentos imprimem uma montanha de intensidade, e Mozz segue cantando cada vez mais fragilizado. "O amor é natural e real, mas não para pessoas como você e eu", declara ele em um dos versos mais fortes da canção.

    "Never Had No One Ever" mantém o clima carregado no álbum, mostrando uma música cadenciada, com uma forte pegada da bateria e guitarras soando altas, graves, quase que em tom de alerta. Na letra, Morrissey afirma que sua vida inteira foi um pesadelo, olhando para a casa da pessoa pela qual é apaixonado, mas sentindo repulsa de si memso por sentir vontade de invadir. Ao final da canção, a voz do cantor torna-se fantasmagórica, parecendo ser ser suprimida pela guitarra cada vez mais alta, enquanto lamenta nunca ter tido ninguém.

    Um dos clássicos da carreira dos Smiths, essa é "Cemetry Gates", com as melodias menos tristes até então; Mozz narra uma ida ao cemitério, em um "tenebroso dia ensolarado". Ele se lamenta por ver todas as lápides, refletir sobre todas as vidas encerradas, cada qual com dramas, paixões e histórias distintas, mas todas com o mesmo fim. O eu-lírico admite ficar com vontade de chorar, sentindo vontade de ir embora do cemitério para não se deprimir mais. Uma das músicas mais perfeitas de todo o álbum.

    "Bigmouth Strikes Again" continua com a overdose de hits; dessa vez com melodias mais introspectivas, mas a bateria deixa um ritmo inquieto para Marr encher cada poro da música com exuberantes guitarras. Essa é uma canção direta sobre culpa. Morrissey declara sentir-se a versão moderna de Joana D'arc, atirado ao fogo por seus erros, por coisas que não foi realmente sério em dizer, ou que não queria dizer. A culpa é tanta que o mesmo afirma, "Eu não tenho mais direito de assumir meu lugar entre a raça humana".

    Uma das letras mais fortes se faz presente em "The Boy With The Torn On His Side". Um cadenciado rock com uma das melhores performances de Johnny Marr (este, um dos mais importantes guitarristas dos anos 80, não por fama, mas sim por influência exercida nas gerações subsequentes). É contada então a história de um garoto literalmente atormentado, sempre com um "espinho ao seu lado". O eu-lírico não entende porque não acreditam em sua história, que para ele é tão real: do garoto com um desejo homicida e saqueador por amor, que mesmo tendo esse desejo nos seus olhos, continua desacreditado.

    Nem as instituições religiosas escapam da visão de Morrissey que tudo está podre, e a prova disso é a canção "Vicar In A Tutu". Nela, Morrissey conta estar roubando chumbo do teto de uma igreja, quando olha para baixo e vê o vigário vestido com um saiote de bailarina. Mesmo chocado, entende que ele apenas quer viver a vida assim. Mais tarde, parece ficar chocado com a hipocrisia do vigário em taxar os outros de corrompidos, sujos e arrogantes, enquanto o mesmo tem segredos muito piores. A história é narrada por límpidas guitarras e uma bateria que segue trotando pela música inteira, e no final, tudo acaba em suspenso, quando Morrissey mistura a si mesmo com o vigário.

    "There Is A Light That Never Goes Out" tem um valor especial para este que vos escreve. Na minha opinião, é a maior obra prima da carreira do quarteto de Manchester. Todos os elementos do álbum vem à tona aqui. A cozinha precisa, as lindas melodias de guitarra, as vocalizações marcantes e a lírica sublime de Morrissey somando-se em uma música perfeita da introdução, passando por verso e refrão, e chegando até o final sem perder o fio da meada. Na letra, Mozz declara que quer sair, ver as pessoas, ouvir música, enquanto o interlocutor dirige, ele declara que não importa nem se um caminhão de dez toneladas ou um ônibus de dois andares bater neles - "Que jeito divino de morrer (...), morrer ao seu lado/o prazer e o privilégio seriam meus". E é aí que percebemos qual é a luz que nunca se apaga a qual o título se refere. Merece estar em qualquer lista das canções mais emocionantes já feitas.

    E fechando o disco temos a décima e última música "Some Girls Are Bigger Than Others". Irônico, Morrissey declara em um típico e redondo pós-punk, acompanhado de backing vocals espectrais, a obsessão sexual a qual todos os homens são submetidos. "Da idade da pedra até a era do desemprego, existe apenas uma preocupação, que eu acabei de descobrir: Algumas garotas são maiores que as outras". Citando e debochando de figuras históricas como Marco Antônio e Cleópatra, Mozz questiona inteligentemente toda essa cultura reprimida por tabus, que despreza o romance, trocando-o pelo hedonismo puro e simples. Um grande final de um grande disco.

    Como foi dito, o U2 só chegou ao posto dos grandes e tiveram espaço para mostrar sua postura messiânica porque o caminho já havia sido pavimentado sonoramente antes por um grupo que pouco durou, consumido pelos problemas com a gravadora, bebida, drogas e conflito de egos, mas que deixou como legado uma influência enorme - influenciando todas as bandas pós-punk do mundo, incluindo aí todas aquelas do levante de Brasília. Até hoje, quando hormonais bandas explodem no mundo cibernético através do MySpace, ouvem-se traços da criatividade de Marr e da ousadia de Morrissey.

    A rainha pode até ter morrido, os Smiths podem até ter acabado, Margareth Tatcher pode até não mandar mais na Inglaterra, mas a sombra da banda continua forte e presente no mundo atual. Os anos 80 realmente foram anos superficiais e vazios, de futilidade e sufoco, e poucas bandas representaram isso tão bem quanto os Smiths. Dez pérolas pop que ajudarão a entender (ou ao menos pensar sobre) a mais distópica e cruel das realidades - aquela que vivenciamos.

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    posted by billy shears at 5:35 PM | 10 comments

    quinta-feira, julho 05, 2007
    Jefferson Airplane - Surrealistic Pillow


    Primeiro foi Orson Welles. Em 1938, o genial roteirista, ator, diretor e produtor transmitiu pelo rádio uma adaptação do livro "A Guerra dos Mundos", do mestre da ficção científica H.G. Wells. Tal tranmissão narrava a chegada de estranhos seres vindos de outro planeta em aeronaves ainda mais esquisitas e o acionamento do exército para deter a invasão extraterrestre causou pânico na população, já que os ouvintes realmente acreditaram que a Terra estava sendo invadida. No dia seguinte, todos queriam saber quem tinha sido o tal desnaturado que pregou uma peça em escala tão grande. A fama de Welles começava a despontar, o que abriria portas para que três anos depois filmasse sua obra-prima máxima, "Cidadão Kane" - mas essa história fica para outro dia...

    Vinte e nove anos depois, o perigo ficou mais real. Multidões de jovens norte-americanos eram mandados ao Vietnã para matar qualquer nativo que se pusesse no caminho. Essa Segunda Guerra de Mundos, entre um Ocidente desenvolvido e opressor e um Oriente pobre e rebelde, ao invés de causar pânico na população, tornou-a um pouco mais... peculiar, digamos assim.

    Nascia o movimento psicodélico, e com ele as múltiplas reações de jovens de todo o mundo. Primeiro, um poeta dark e sua banda, que atendiam pelo nome de The Doors, lançaram seu primeiro álbum com a sexual e ilícita "Light My Fire" como seu principal hit. Novaiorquinos chegados em cantar sobre heroína, sadomasoquismo e assassinato juntam-se a Andy Warhol e gravam "The Velvet Underground & Nico". Um negro canhoto e autodidata exibe um monte de distorções chocantes para o grande público e pergunta, "Are You Experienced?". Frank Zappa chama a atenção de todos com sua musicalidade pouco óbvia e sua ironia ácida. John Phillips, do The Mamas & The Papas, inventa o festival Monterey, onde autênticos doidões da época, como Byrds, Grateful Dead, Buffalo Springfield, a musa do berro Janis Joplin e os selvagens do The Who se apresentaram mostrando que algo estava acontecendo. Quase que simultaneamente ao festival, quatro jovens da cidade portuária de Liverpool, Inglaterra, lançam um disco intitulado "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" e racham a música pop em antes desse disco e depois desse disco. Um antigo rival, Brian Wilson, líder do Beach Boys, que no anterior havia maravilhado a todos ao alcançar a perfeição do pop em "Pet Sounds", teve um colapso nervoso ao se sentir derrotado por esse disco e desiste da música. O circuito underground inglês revela ao mundo o Pink Floyd e o seu "The Piper At The Gates Of Dawn", um dos principais discos do movimento psicodélico e uma das bases do rock progressivo. Até os Rolling Stones, selvagens e básicos que eram, tentaram a sorte com "Their Satanic Majesties Request". O ícone comunista Che Guevara é assassinado e estréia o emblemático musical "Hair", que pregava a libertação da mente e subversão aos valores burgueses antiquados. Estava inaugarada a Era de Aquário. As águas desaguaram em solo brasileiro, nascendo daí a Tropicália, os Mutantes e os discos psicodélicos de Gal Costa e Ronnie Von. Aí sim que o plano maligno de Orson Welles foi concretizado, levando a população ao pânico xenofóbico e o choque de valores.

    Mas esses ETs todos não surgiram do nada. Todos chegaram liderados por um avião multicolorido e cheios de desenhos aparentemente não compreensíveis. Esse partiu do mundo colorido de São Francisco, onde habitavam Jerry Garcia e seu Grateful Dead, e recebia o nome de Jefferson Airplane, um dos primeiros a decolar. Essa nave era tão exótica que não usava gasolina, e sim, a dietilamida do ácido lisérgico, LSD. O problema é que, às vezes, o combustível causa alguns efeitos colaterais, deixando o mundo mais colorido do que o motorista realmente deseja ver... Syd Barrett, principal motorista da nave Pink Floyd quando a mesma estava em um "Interestellar Overdrive" que o diga...

    Então, depois dessa introdução que foi uma viagem só (se é uma bad trip ou não, o leitor decide), vamos aos fatos concretos: inspirados por Beatles, Byrds e Lovin' Spoonful, o vocalista Marty Balin, a cantora contralto Grace Slick, os guitarristas Paul Kantner e Jorma Kaukoner e a cozinha do baixista Jack Casady e o baterista Spencer Dryden surgiram como o Jefferson Airplane, um dos grupos mais relevantes daqueles desbundados anos.

    Três fatores foram necessários para que a banda fosse notada no mainstream: primeiro, a participação no festival Monterey; segundo, a aparição no The Ed Sullivan Show, onde a banda foi inovadora no uso da Chroma Key, a famosa técnica de se apresentar sobre um fundo azul ou verde, para que a cor seja anulada através da sobreposição de uma imgem, no caso da banda, luzes psicodélicas, que devem ter fascinado os jovens espectadores e causado uma repulsa sem precedentes nos conservadores adultos; e por último, trazendo todos os seus sonhos e pensamentos irreais à tona, o sexteto liberou seu maior clássico para o público deitar e rolar em viagens que até deus duvida. O nome não podia ser mais apropriado: "Surrealistic Pillow", nome sugerido pelo produtor Jerry Garcia, que disse que o disco era tão surrealista quanto um travesseiro. Talvez justamente pela banda não ter entendido que o disco ganhou esse nome...

    O disco é iniciado já peculiar e espantosamente, pela música "She Has Funny Cars". Já chamando a atenção com uma batida meio tribal, um riff de guitarra hipnótico e as vozes de Marty e Grace em um chapante dueto que guia a música até o forte refrão, para que então o ciclo recomece de novo. "Se você ver preto/Você não pode olhar pra trás/Você não pode olhar pra frente/Você não pode encarar o amanhã", diz a letra em tom de alerta, tratando sobre a visão externa do caso de uma pessoa perdida em sua própria alienação.

    "Quando a verdade parecer mentira/E toda a alegria dentro de você morrer/Você não quer alguém para amar?". Esse é o mote que introduz um dos principais clássicos do grupo, "Somebody To Love". Ainda psicodélica, a música é guiada por um ritmo forte e truculento, enquanto a voz de Grace viaja pela tristeza dos versos até encontrar com a voz de Marty no desesperado refrão, e por vezes guitarras rugem e trovejam em distorções, por vezes mergulham o ouvinte em um delírio melódico em solos de se cair o queixo.

    A doce "My Best Friend" não tem outra definição: é totalmente Beatles, a não ser pelo vocal feminino acrescido. As belíssimas linhas vocais, as doces harmonias de cordas, a letra totalmente "paz e amor", o refrão mágico de tão pueril... Mas não é plágio, e sim, influência: a banda ainda acelera várias vezes o ritmo na balada, apenas para voltar ao doce chorus, fazendo isso uma assinatura pessoal.

    "Today" é outra balada, mas sem o delírio Beatle da anterior. A música em questão é pontuada por uma relaxante melodia de guitarra, um pandeiro golpeado insistentemente e um refrão cheio de melodias e vocalizações belíssimas. É o momento em que a banda invade a praia de Brian Wilson para também compor uma doce balada hippie de amor.

    A seguinte é "Comin' Back To Me", iniciada por agradáveis melodias de guitarra, mostrando que a banda não era apenas um caldeirão insano e frenético de psicodelia; uma delícia folk, misturando romance e déjà-vu, em uma letra tão bonita quanto misteriosa, em pouco mais de cinco minutos, onde Balin dá um show de interpretação, fazendo da sua voz um dos principais destaques da música. Estranhamente, é um dos poucos discos em que três baladas seguidas não se mostram algo chato, e sim um interessante interlúdio.

    "3/5 Of A Mile In 10 Seconds" é o retorno da banda ao rock. As guitarras elétricas voltam tensas e decididas, equilibrando-se em uma forte cozinha, e chega cereja do bolo com as grudentas vocalizações. As melodias chegam a lembrar os primeiros discos de Frank Zappa, e o solo ácido é outra viagem, além da neurótica e anti-social letra, onde cansado de toda a paranóia urbana, Marty quer ir para um lugar tranquilo. Uma das canções que explicam o porque do destaque do Jefferson Airplane entre tantas outras.

    E não pára por aí. "D.C.B.A. 25" é introduzida por um ótimo baixo de Casady, em uma canção em um ritmo mais cadenciado, e os dois vocalistas mais uma vez repartem a letra de forma impressionante. Menos ácido e digamos, mais místico, o solo é o mais relaxante entre todos que foram apresentados até agora. Agora dão espaço para a letra viajar, com suas inúmeras metáforas, e estrofes que deixariam Jack Kerouac com um sorriso no rosto.

    É um viajante som de flauta que abre "How Do You Feel", soando como uma música dos quatro de Liverpool tendo o tal instrumento em questão ao invés de gaitas, acrescentando uma variação pequena, porém funcional, desbravando um novo terreno sem deixar de olhar para os já conhecidos. Marty conta de quando encontrou uma garota que a deixou simplesmente em êxtase só de tê-la no seu campo de visão. O final a capella é outra pérola brilhando aos ouvidos.

    "Embryonic Journey" é um instrumental ao violão que enche os ouvidos. Sem dúvida, a dupla das sete cordas do Jefferson mereciam um destaque maior na história da música sessentista. Simples e direto, uma passagem perfeita entre o pop de Pã e o delírio de Lewis Carroll.

    Fortemente inspirada no Bolero de Ravel, entra o maior clássico do grupo, "White Rabbit", que surge com um baixo repetitivo, uma bateria marcial e acordes fracos, abrindo espaço para Grace cantar "Uma pílula deixa você maior/E uma pílula deixa você menor/E aquela que a sua mãe te dá/Não faz efeito nenhum". E não, caros cinéfilos, não é mera coincidência: sem o Jefferson Airplane, dificilmente a revolucionária trilogia de ficção científica "Matrix" existiria; inclusive, o nome do filme vem de uma casa de shows em São Francisco onde a banda tocou ao vivo pela primeira vez. A música parte de sua estrutura hipnótica que cita um trecho de "Alice no País das Maravilhas" para um colosso de poder e intensidade ao seu final, quando Grace abusando do volume do gogó, cita o rato silvestre com toda a força dos pulmões: "Alimente a sua cabeça". Se nem a Disney conseguiu diminuir a lisergia da história que tem uma lagarta que fuma cachimbos orientais, o Jefferson Airplane fez o que pôde para amplificar mais ainda.

    "Plastic Fantastic Lover" parte do dedilhado para um riff fora de órbita e vocais em tom de ousadia, para contar a irônica história de um homem apaixonado por uma boneca inflável e toda a sua fisionomia. O cara nem ao menos imagina nenhuma outra mulher para ser sua 'fantástica amante de plástico". Recheados de sons misteriosos e engraçadinhos, a banda fecha o álbum com chave de ouro. Pensando melhor, não. Chave de ouro é muito careta, e muito burguesa. É uma chave feita de materiais extraídos da natureza, toda colorida. Total desbunde!

    E o avião de Jefferson gostou de onde pousou, tanto que continuou nessa terra mais estranha que qualquer
    planeta que exista além Via Láctea. Pena que com o tempo, o avião foi dando sinais de desgaste, trocando de couraça, de forma, de tripulação e de nome, passando por Jefferson Starship, Starship e Jefferson Starship The Next Generation, provavelmente acompanhando as evoluções da ficção científica. Mas foi quando tinha a forma do veículo inventado por Santos Dumont que a banda fez mais sucesso. Qualquer um que escuta o disco se sente um vivo agradecido por escutar esse fruto da união de doidonas cabeças inventivas com a produção de Jerry Garcia.

    Então, bicho, não dê bandeira, faça um agito e dê uma sacada nesse disco, que o barato é mesmo limpeza. Podes crer.

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    posted by billy shears at 10:06 AM | 7 comments

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