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    segunda-feira, abril 30, 2007
    Sem Reações Psicóticas: 25 anos sem Lester Bangs


    Muita gente pensa que as únicas coisas que as testemunhas de Jeová tem a oferecer são aqueles folhetos cheio de chatices para nos converter. Mas, como diz a sabedoria popular, toda regra tem sua exceção. Na cidade para onde Eric Clapton e J.J. Cale viajaram em 2006, Escondido, no estado da Califórnia, uma devota senhora deu ao mundo Leslie Conway Bangs, no dia 13 de dezembro de 1948. Seu pai morreu quando ele ainda era jovem. Desde criança já se mostrava fissurado em escrever, escrevendo continuações dos livros de Júlio Verne, Robert Louis Stevenson e Alexandre Dumas. Na adolescência, viciou-se em ficção científica, apesar de sua mãe o proibir, pois se a Bíblia não mencionava vida em outros planetas, logo ela não existia.

    Por algum tempo, também foi testemunha de Jeová, e tinha um talento quase sobrenatural para fazer as pessoas gostarem da mesma coisa que ele. Até descobrir a beat generation e o rock and roll, e no final dos anos 60 procurou com seus amigos Richard Meltzer e Nick Tosches lançar os alicerces da crítica roqueira. Ao mesmo tempo, foi contratado pela Rolling Stone após escrever um review negativo sobre o MC5 ("esqueça que eles vêm como um bando de punks de sessenta anos em uma power trip", dizia a resenha, uma das primeiras ao usar o termo "punk"), banda da qual se tornaria fã depois. Influenciado por Jack Kerouac e William Burroughs, "Lester" tornou-se ícone do New Journalism e seu subgênero gonzo - análises que mais pareciam narrações feitas enquanto se estava sob efeito de algum psicotrópico.

    E a partir daí, tornou-se o escritor mais importante da música pop. Escreveu sobre jazz, a british-invasion, garage blues, blues-rock e ajudou a cunhar e definir termos como "punk" e "heavy metal", realizou entrevistas hilárias com Lou Reed. Dormia toda noite sobre efeito de bebida, logo após de erguer o nome dos Stooges e o MC5 às alturas, e o sono dos justos vinha ao som de Iggy e Black Sabbath. Foi chutado da Rolling Stone após escrever uma resenha negativa da Canned Heat, migrou para a revista Creem, mais liberal, onde fez sua fama e textos mais famosos. Depois, ainda escreveria para Village Voice, Penthouse, Playboy e outras publicações. Em suas entrevistas, discordava abertamente e discutia com o entrevistado quando tinha vontade. Referia-se a punks como "white nigger", ou seja, brancos que viviam nas mesmas condições que negros.

    Criticava negativamente o rock progressivo e exaltava o movimento punk e o hard rock; por isso, mudou-se para New York e fez do CBGB's o seu point, elogiando Ramones, Television, Richard Hell And The Voidoids e Patti Smith Group. Aos poucos, se afasta da literatura esopntânea, apesar de ainda ser mil vezes mais sarcástico e com alma que muitos companheiros de ramo. Quase no fim da vida, tenta se desintoxicar no Texas ao lado de Lou Reed (o que qualquer mente sã sabe não ser a melhor das idéias), enquanto é torturado pelos embustes do rock and roll e a morte de Sid e Nancy.

    Polêmico, produtivo, junkie, com passagens pela música, idealista, visionário, sarcástico, mal-educado, espontâneo, assumidamente contraditório, capaz de escrever textos feito "Como Ser Um Crítico de Rock" (um dos textos mais irônicos já feitos até o dia de hoje), Lester marca quem o conhece. Quem lê suas furiosas linhas não encontra nenhum pouco de imparcialidade ou objetividade. Encontra sangue, suor e rock and roll. Encontra é fúria ao invés de piloto automático.

    Quando morreu há 25 anos atrás, em 1982, de overdose dos tranquilizantes Valium com Darvon, com apenas 33 anos passou de crítico de respeito a uma das figuras mais influentes quando o negócio é jornalismo musical. Ganhou merecidas homenagens e citações musicais de R.E.M., Ramones, Buzzcocks, Bob Seger, (Horseshoe), Gumdrops, inspirou o nome da banda Ghost Of Lester Bangs, e a homenagem mais famosa foi ser interpretado por Philip Seymour Hoffman no filme "Quase Famosos", do diretor Cameron Crowe.

    No Brasil, é difícil encontrar algo do meste-que-recusava-ser-mestre (certa vez disse para os jovens jornalistas que aspiravam ser grandes feito ele para que nunca o copiassem), mas além do filme de Cameron Crowe, também se encontram várias citações no livro "Mate-me Por Favor" (o livro definitivo sobre o punk rock) e o seu livro "Reações Psicóticas", recomendado tanto para amantes de rock quanto para quem se interessa por new journalism e seu subgênero gonzo.

    Para quem ainda não é conhecedor de seus escritos e ficou interessado, Lester Bangs é um escritor seminal para os apreciadores de música. E o leitor pergunta-se por quê. A explicação é simples: a identificação com Lester é imediata, mesmo que não concordemos com suas opiniões. Sua relação com os discos que ouvia, as cativantes entrevistas que realizou, os inúmeros shows que viu e descreveu, são textos escritos com calor. Não são linhas impessoais e frias.

    E a partir do momento que as melhores músicas do mundo tendem a ser totalmente parciais e subjetivas, porque o resenhista das mesmas deveria fingir que está escrevendo tratados científicos sobre música? É por isso que dá-lhe, Lester. Os críticos de rock and roll devem ser tão ou mais caras de pau quanto os músicos sobre os quais escrevem, pois são eles que anunciam ao mundo cada uma das qualidades e defeitos do showbizz. Ensinamento importante esse; se quisermos apenas ganhar trocados e ganharmos discos de graça, é melhor irmos pentelhar em revistas para os não tão fanáticos assim sobre música; agora se quisermos escrever pela música e não pelos trocados, melhor dizer a doída verdade.

    E com tantos críticos elogiando músicos sem graça nenhuma, penso que a cara de pau de Lester está fazendo um 'pouquinho' de falta...

    "Talvez o que este livro exija do leitor é a disposição em aceitar que o maior escritor americano tenha escrito apenas análises de discos"
    (Greil Marcus, na introdução da versão norte-americana de "Reações Psicóticas")

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    posted by billy shears at 3:16 PM | 4 comments


    5 bons lançamentos - 2007


    Silverchair: Young Modern
    Depois do lançamento do Diorama (2002), os rapazes do Silverchair resolveram dar um tempo com a banda para seguir com projetos paralelos. No finalzinho de 2005, eis que vem a notícia de que a banda se reúne novamente para a gravação de disco novo.
    Young Modern, lançado em março, é um trabalho bem diferente dos outros álbuns: muito pianinho, efeitos, e um som mais viajado.

    Feist - The Reminder
    Melodias para flutuar. Leslie Feist (Broken Social Scene) explora tudo o que há de bom na boa música. Junta isso com sua lindíssima voz, e... pronto: um álbum perfeito, com direito a uma versão de Sea Lion Woman, de Nina Simone.
    O álbum inteiro está no myspace da cantora.

    www.myspace.com/feist

    Kings Of Leon - Because Of The Times
    O terceiro álbum dos norte americanos do Kings Of Leon, serviu para firmar a banda no cenário do Rock. Já que muitos falavam que era apenas sucesso passageiro. Because of the Times é um execelente álbum, considerado por muitos, o melhor dos três álbuns lançados pela banda.


    Nine Inch Nails - Year Zero
    Não acho que Year Zero seja o melhor álbum do NIN, mas o tema "o fim do mundo" foi abordado de uma forma bem realista (e bem negativa) por Trent Reznor.
    O filme Panic in Year Zero! (1962) é uma possível inspiração para o álbum, por seus personagens tomarem medidas de survivalism ("sobrevivêncialismo") para escapar de uma guerra nuclear.
    "You got your pacifism - I got survivalism"
    http://www2.blogger.com/www.myspace.com/nin

    The Stooges - The Weirdness
    Depois de tanto tempo, quem diria... um novo álbum do Stooges. The Weirdness ainda possuí as guitarras com muita distorção, bateria e baixo marcantes, assim como a voz de Iggy Pop.
    O primeiro single, Idea of Fun é completamente viciante. Então, liga o som, pega uma cerveja e se divirta.
    www.myspace.com/iggyandthestooges

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    posted by natália; at 11:15 AM | 4 comments

    quinta-feira, abril 26, 2007
    The Beatles - Revolver


    Una as palavras Beatles e psicodelia e a imagem que lhes virá à mente será a da capa do Sgt. Peppers, de 1967, álbum supra-sumo dos Fab Four com alguns dos maiores clássicos da lisergia musical, como "Lucy in the Sky with Diamonds e "A Day in the Life". Sem dúvida o começo de todo o rock complexo, o ponto divisório de tudo. Verdade? De certo ponto de vista, sim: ele realmente separa o rock, por milhares de motivos que não nos cabe agora discutir. Mas os Beatles já não eram a banda de "She Loves You" havia um bom tempo. Começaram a se afastar do tradicional mersey beat já no Help!, onde davam grandes exemplos de composições fortes (como em "Yesterday") e mistura de estilos, como o folk "You‘ve Got to Hide Your Love Away". O álbum seguinte, Rubber Soul, trazia grande inspiração na música indiana (inesquecível a introdução de "Norwegian Wood" com a cítara) e John Lennon já começava a demonstrar ser um grande letrista em "Nowhere Man" e "In My Life". Mas, caso encerrado: foi com o Revolver que os Beatles começaram a mudar o velho rock ‘n’ roll e, de maneira nunca vista antes por artista algum, a música em geral..

    O álbum abre com uma das melhores composições de George Harrison, o eterno silent beatle: “Taxman”. Como bom cidadão que era, George um dia foi avaliar seus impostos e percebeu que eram impagáveis para boa parte da população inglesa. Como bom artista que era, transformou a situação injusta em arte. Com uma guitarra distorcida, abre a canção como o próprio “taxista” dizendo seus métodos: “é um pra você, dezenove pra mim”, clara referência ao preço que a rainha cobrava. E ainda continua, enquanto a guitarra tocada por Paul grita aos nossos ouvidos: “fique agradecido por eu não pegar tudo.”

    A segunda faixa prova o quanto Paul McCartney era importante para a banda como músico. Imaginem um rock sem guitarras, apenas violinos. Essa é “Eleanor Rigby”. Enquanto a orquestra segue com suas cordas, Paul canta uma epopéia liverpooliana em terceira pessoa, com uma veia poética tão forte e tão bela como não se via desde tempos mais eruditos. As vozes de apoio estão sensacionais. Toda essa beleza não faz a canção deixar de ser triste. Paul sempre disse que o nome Eleanor Rigby foi inventado para a música, mas é interessante que existe uma tumba com esse nome gravado em Liverpool, e a canção fala: “Eleanor Rigby, morreu na igreja/ e foi enterrada só com seu nome/ninguém veio.” Marco da história do rock, em todos os aspectos.

    John Lennon entra no disco com um disparo de uma de suas mais belas pseudo-baladas roqueiras, “I‘m Only Sleeping”: “quando acordo de manhã, levanto minha cabeça, ainda estou bocejando”, numa canção simples sobre seu hábito de ficar até tarde na cama. A música tem todo um ar de guitarras e bateria em harmonia, num refrão que se repete, como um pedido de John: “quando acordo de manhã/[...] por favor, não estrague meu dia.” Já nos apresenta um quê de psicodelia com versos como “quando estou no meio de um sonho/fico na cama/flutuo correnteza acima”. Termina com o instrumento que se mostrará melhor mais adiante, em "Tomorrow Never Knows". Viciantemente maravilhosa.

    “Love You To”, faixa seguinte, é outra composição de George, dessa vez com forte indício de música indiana, desde os vocais até a cítara. Uma canção com uma letra filosófica, seguindo a linha que George viria a seguir em todas as suas futuras canções que tivessem esse clima, como "Within You, Without You" e "The Inner Light". O experimentalismo começa a rolar solto aqui: nunca uma banda de rock tinha feito algo tão próximo à música tradicional indiana... Um belo arranjo de cordas também, deve-se dizer. George novamente mostrando que, se estava nas sombras atrás de Paul e John, era porque assim queria, não por falta de talento.

    Nova balada de Paul em “Here, There and Everywhere”: uma das preferidas dos próprios Lennon/McCartney, escrita logo após de Paul ouvir "God Only Knows", dos Beach Boys. A melodia é linda, fixante e marcante. A voz de McCartney se ergue sobre vocais dos outros Beatles entoados de forma romântica, numa balada que marca por sua beleza, em prova de amor eterno: “estarei aqui, lá e em qualquer lugar.” Foge um tanto das guitarras, mas, pô: que música linda.

    A sexta música é um dos grandes sucessos dos Beatles, que chegou a ser transformada em um dos melhores desenhos animados já feitos: “Yellow Submarine”. Viagem de ácido? Brincadeira interna entre os membros? Nunca saberemos: Paul diz que foi uma música escrita quando estava deitado na sua cama, quase dormindo, pensando em uma canção para que Ringo cantasse. “Ele tem jeito com crianças.” John dá outras versões, um negando a autoria do outro. Experimentalismo puro, sem dúvida: vários instrumentos desconhecidos e barulhos, de sinos a correntes, são tocados no meio da música, que tem o velho refrão que contagia a todos por sua simplicidade. Porque, afinal, todos nós vivemos num submarino amarelo.

    A guitarra de George grita na canção que marca o tom do álbum, “She Said, She Said”: cordas lancinantes, voz harmoniosa, letra psicodélica. A melodia é de Lennon, assim como a letra baseada na frase de um amigo que certa vez disse que “sabia o que era estar morto.” A música segue uma linha de vozes e sons que não se perde até o fim, e só é interrompida quando John canta o refrão. Impossível descrever, é simplesmente um toque de prazer aos ouvidos. Quer exemplo melhor de contribuição ao rock?

    Um piano começa e é acompanhado por uma bateria. De repente, uma voz canta outra balada de Paul: “bom dia, raio de sol!” É assim que começa “Good Day Sunshine”, faixa fortemente apoiada no refrão e no piano, com leve toque de humor. McCartney novamente conta uma historinha dentro de uma canção: uma das músicas mais divertidas e memoráveis dos Beatles. Paul mostra aqui sua habilidade com as palavras, transformando refrão em música e música em arte.

    A guitarra grita e começa “And Your Bird Can Sing”. Aqui John Lennon mostra todo o rock and roll que poderia fazer, com os vocais acompanhados e a sua própria voz, cantada emocionantemente. Tem influência ainda de seus primórdios, mas a guitarra de George, distorcida a tal ponto que chega a lembrar Jimi Hendrix, mas tocada em uma velocidade diferente do normal, acompanhada de leve com a bateria. Prova inegável de que os Beatles eram uma banda de rock das boas, indiscutivelmente.

    Aqui vem um dos momentos sérios do álbum, em uma canção com vários instrumentos e acompanhamento forte, com uma letra romântica, que lembraria "The Fool on the Hill", do Magical Mistery Tour. “For No One”, canção que tem instrumentos de sopro, piano e pratos tocados em conjunto, com a voz de Paul viajando em paixões literárias... outra experiência unicamente auditiva.

    Havia um médico que servia LSD a seus pacientes quando a droga ainda era legal. Quase todos os artistas, escritores, hippies e cabeludos da época experimentavam o comprimido com o tal. John experimentou, e escreveu uma música sobre ele: “Dr. Robert.” Novamente a guitarra que lembra suas canções anteriores e a letra descompromissada mas viajante. É John Lennon e os Beatles no auge do rock psicodélico.

    “I Want to Tell You”, faixa seguinte, nova canção de George que segue em ritmo crescente, é um show de instrumentos e vocais. A voz principal soa cada vez mais emotiva e fascinante, assim como os instrumentos, que se tornam mais fortes conforme a melodia avança. A letra, muito romântica, fala de quando o coração diz o que a mente não quer. A guitarra soa como nas outras, com o estilo Revolver de ser. Ringo arrasa na bateria, calando a boca de um prepotente Keith Moon que um dia diria que ele “não prestava.”

    “Got to Get You Into My Life”, do Paul, pula o estilo amoroso que ele adotava no álbum até então: é uma música que, nas entrelinhas, fala de seu amor à maconha, fato admitido pelo próprio. Não deixa de ser uma canção linda, com seus vocais exaltados e bateria tocada como uma segunda voz. Nada de pancada, nada de crítica. Paul queria saber de música romântica. E foi talvez o melhor músico de todos os tempos nesse quesito.

    John Lennon certa vez disse ao “quinto Beatle”, o produtor George Martin, que queria fazer uma música em que soasse como um monge gritando do alto de uma montanha. A música se chamava “Tomorrow Never Knows”, e foi escolhida como a última faixa do Revolver. Martin analisou a letra e fez uma de suas confusões lisérgicas, com gravações de guitarra tocando de trás para frente e de frente para trás sem ordem para que parecesse o som de aves gritando. A bateria tocam forte ao fundo e a voz de John – vejam só – soa como a de um monge entoando sabedoria para os quatro ventos. A letra faz uma provável apologia às drogas, mas não deixa de ser filosófica: “desligue sua mente.” É, basicamente, sobre meditação. Um som nunca antes ouvido. Genial, tanto por seu experimentalismo que resultou numa mistura, um amontoado de sons harmonisosos, tanto por sua qualidade musical... só ouvindo para crer.

    Enfim, é com o “canto das aves” que o álbum termina. Não há a menor chance de meras palavras convencerem qualquer pessoa da importância desse álbum. Bom, influenciou gente desde os Beach Boys até Ozzy Osborne. Provou que os Beatles eram bem melhores que os Stones, esses ocupados em fazer singles. Foi um dos predecessores de tudo que a década de ’60 ainda iria mostrar. E, acima de tudo, é um discão que não tem uma única música desprezível. Ouça e constate.

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    posted by gabo faria at 9:45 PM | 9 comments

    sábado, abril 21, 2007
    Iggy Pop - Lust For Life


    "Meus fãs só conseguem se relacionar comigo porque minha música nunca esteve nas paradas populares, totalmente fora da realidade. Essa é a principal característica que sempre ficou mal entendida sobre mim. Toda essa porcaria que eles falam que eu fiz - mexer com sangue, praticar atos profanos - eu só fiz isso porque acreditava que eu estava certo e que estava fazendo a música que pessoas reais que tinham uma vida real iriam querer ouvir. Minha música se espalhou justamente por contradizer a porra da pirâmide comercial." (Iggy Pop, explicando a razão do seu sucesso)

    "Os Stooges eram como uns maníacos, energia bruta. Este era o nome perfeito pra eles - The Stooges, como se os três patetas tocassem rock and roll, como seria o som deles? Como o dos Stooges. E eles precisavam de um vocalista - bem, que tal o Iguana? Perfeito. Totalmente demente, totalmente enlouquecido. Iggy foi muito influenciado por Jim Morrison. A poesia de ambos era muito literária e muito apaixonada. E eles partilhavam um grande lance de paixão em suas performances. Santo Deus, falar a respeito de tocar com músicos apaixonados. Iggy Pop e Jim Morrison estavam entre os cantores mais apaixonados com quem já estive no palco." (Ray Manzarek)

    "Iggy colocava vida e perigo em cada show. Vi-o ensanguentado em cada um dos shows. Cada um dos shows envolvia sangue de verdade. Dali em diante, rock and roll não poderia ser nada menos que aquilo pra mim. Tudo que fiz - seja escrevendo ou tocando - tinha sangue nas páginas, tinha sangue nas cordas, porque qualquer coisa menos que isso era uma merda e uma porra de perda de tempo." (Scott Kempner)

    James Newell Osterberg Jr., poderia ser hoje em dia um pacato cidadão do Meio-Oeste americano, filho de professores e ser um acomodado, que cresceu em um trailer perto da universidade de Michigan entre as cidades de Ypsilanti e Ann Arbor, sofrendo de violenta bronquite e princípios de asma, que já havia sido um excelente e bem-comportado aluno. Isso se os produtos elétricos da sua casa não produzissem sons dos mais diversos que acabaram incetivando o garoto a escutar jazz, blues, surf-music e rock and roll dos anos cinquenta. Isso se ele não começasse a tomar mais remédio pra asma - que o deixava elétrico - do que o recomendado. Isso se não tivesse ouvido o clássico do Kingsmen "Louie, Louie". E quando ocorreu a invasão britânica, passasse a venerar as bandas mais agressivas do levante, como The Who e Rolling Stones. E não tivesse largado a universidade e trabalho em loja de discos para trabalhar com músicas, e se não tivesse conhecido Velvet Underground, se nunca tivesse conhecido os irmãos Asheton, se nunca tivesse ido a um show do The Doors, se nunca tivesse ouvido falar no músico experimental Harry Partch...

    O leitor percebe como que tantos fatos aparentemente mundanos, sem nenhuma conexão entre si e que podem acontecer com qualquer pessoa, possam fazer com que alguém torne-se uma das maiores lendas do rock and roll, e por conseqüência, da música pop do século vinte? Há exatos sessenta anos nascia um dos muitos frutos desses meios tão caóticos e difíceis quanto divertidos e interessantes, assim como Lou Reed, Joey Ramone, Ozzy Osbourne, entre outros. Há 30 anos atrás, após o fim dos Stooges, Iggy Pop era apadrinhado pelo então megastar David Bowie desde a época dos Stooges (e, segundo as más línguas - incluindo a do próprio Iggy- a amizade dos dois chegava ao affair), e foi convencido pelo mesmo a iniciar sua carreira discográfica. Após alguns meses, saíam em 1977 os dois primeiros registros de Iggy: "The Idiot" e "Lust For Life".

    O camaleão produziu e ajudou o iguana com suas as composições, além de fazer backing vocals. Na época, os dois estavam passando uma temporada em Berlim, local que viu nascer a trilogia alemã de Bowie, formada pelos discos "Station to Station", "Heroes" e "Low". Mas, apesar da frieza emanada por esses discos de Bowie, Berlim não diminuiu o calor de Iggy e seu tesão pela vida. Produziu dois de seus melhores discos solos lá. E com muito custo seu humilde escrivão escolheu o preferido para escrever sobre.

    A bateria da canção título "Lust For Life" se junta a um riff de guitarra rocker, e Iggy entra como um tigre contando todas as todas suas peripécias e crônicas urbanas, e já diz no refrão "Bem, eu sou apenas um cara moderno/É claro que já tomei na orelha antes/Por causa de um tesão pela vida/Pois eu tenho um tesão pela vida". Uma das melhores músicas compostas pelo Iguana, mesmo não tendo a ajuda dos Ashetons. Refrão empolgante e berrado, um vocalista cínico e puro vigor roqueiro. Também é a música que introduz a versão cinematográfica do drama junkie "Trainspotting", quando Mark Renton, Spud e Sick Boy estão fugindo da polícia.

    E a energia continua sendo liberada, agora em "Sixteen", que apresenta uma guitarra mais elétrica ainda, só que em menor velocidade. E Iggy conta como é estar com um tv eye pra cima de uma garota de apenas dezesseis anos. "Doce dezesseis em botas de couro/Corpo e alma, eu fico tão louco/Baby, baby, eu tenho fome/Doce dezesseis", canta nosso cínico narrador. Dois minutos e meio de tesudo delírio roqueiro.

    "Some Weird Sin" não deixa a peteca cair. A velocidade volta, só que com maior melodia, onde se abusa das notas agudas no riff. E Iggy apresenta notável evolução na técnica vocal, realmente cantando muito ao invés de berrar, rugir, vociferar e gemer as letras como nos seus dias com Stooges. Iggy diz que acha tudo demasiadamente careta, sentindo-se triste e doente, sentindo necessidade de algum pecado bem estranho para que o sangue volte a circular alegremente nas suas veias.

    Cadenciada e em tom cínico, esta é "The Passenger", dona de um groove delicioso e com um refrão estilo "la la la", enquanto declara seu estilo de vida nômade e noturno, sempre envolvido com garotas, superficialidade e beleza. A canção não varia muito de estrutura, a não ser por uma aparente melodia maior no refrão. A bateria marcial imprime na canção um ritmo realmente grudento.

    "Tonight" é o nome da balada do álbum. Até os mais desavisados ou menos informados conseguem identificar os backing vocals como sendo de autoria de David Bowie. Começando em tons épicos, a canção cai em um tom melódico e açucarado, e Iggy conta a chocante história de ver a garota que amava morrer de overdose, e diz no lindo refrão que tudo estará bem esta noite, pois ele a verá no céu ainda hoje, supondo uma idéia de suicídio. Um Iggy "shakespeareano" entrega uma grande performance com eloqüência e voz grossa.

    Uma música pop cínica surge em "Success", onde Iggy dá uma bela zoada no show business desde o primeiro verso, dizendo "Lá vem o sucesso/Lá vem o meu carro/Lá vem meu tapete chinês/Lá vem o sucesso". Aqui Iggy faz umas vocalizações meio zoadas, provando que, mesmo abandonando sua antiga banda, ainda era um autêntico pateta. O maroto ainda compara o público selvagem a um zôo e diz que vai fazer qualquer coisa que quiser. Tente não cantar quando a canção acabar.

    "Turn Blue", como o nome sugere, é carregada de influências blues, arrastada e com um Iggy ultrapassando o limite da razão nos vocais, passando pela rouquidão, falsetes, vocalizações zoadas, berros e tudo o mais, enquanto relata seu desejo por uma garota negra. Sente inveja dos negros conseguirem chegar nela, comenta de ter se injetado todo e sente-se uma fraude por, mesmo sendo Iggy, não saber como dar em cima da garota.

    A sociedade decadente é analisada por Iggy Pop em "Neighborhood Threat", canção que retoma o vigor roqueiro com uma forte bateria e guitarra elétrica, mas os backing vocals e teclados ainda inspiram certo clima acessível. Iggy narra, em tom sério, em uma letra que divide falta de esperança e certa crítica social.

    "Fall In Love With Me" tem um clima meio anos 60, com uma letra meio "bobdylanesca", somando isso a guitarras sinuosas e um fundo estático, muito provavelmente abrindo caminho para que o poderia vir a ser a new wave. Caso descontássemos todo o cinismo com o que o autor escreve suas letras, seria uma animada e até dançante canção romântica. Porém, estamos falando de mr. James, que insiste em perverter tudo genialmente à sua maneira.

    Sessenta anos. Quem diria que um dos homens mais doidos do rock and roll chegaria a essa idade, quando todo mundo apostava que ele acabaria numa cova feito Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Johnny Thunders e tantos outros em pouco tempo? Quem diria que o cara que já quebrou quase todos os ossos do corpo, já derramou sangue no palco e que fez o diabo no palco e na música chegaria um dia ser sexagenário? Pergunta-se a mesma coisa de Keith Richards, Lemmy e Jerry Lee Lewis, e não se obtém resposta. E pelos mais de quarenta anos de serviços prestados à boa música de atitude e qualidade, só temos que agradecer e desejar nossos sinceros parabéns ao Iguana.

    E também lembrar que pro inferno com Elvis Presley, Iggy Pop é o rei do rock!

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    posted by billy shears at 4:33 PM | 7 comments

    sexta-feira, abril 13, 2007
    Blondie - Parallel Lines


    Quando o punk novaiorquino explodiu em 1976, tivemos o primeiro hype notório do Rock. Infelizmente, como não vivemos em um mundo em que o sol brilha para todos, raras foram as bandas da Grande Maçã que viram suas contas bancárias se encherem de vários e agradáveis zeros. Realmente, no último ano de sucesso do rock empolado, técnico e bonitinho ficava meio difícil bandas com a tosqueira agressiva e primitiva como os Dead Boys, os Voidoids e os Ramones fazerem sucesso, mas o mesmo não podia ser dito de bandas que produziam um som mais palatável e que tinham aceitação maior do grande público. Esse punk mais pop, anguloso e dançante foi chamado por Seymour Stein, da gravadora Sire, de "new wave", e teve como grandes nomes de New York o Talking Heads e o Blondie, que até Agosto de 1974 chamava-se Angel And The Snakes.

    De início uma banda de punk que as pessoas não teriam medo de ouvir, o Blondie foi aprimorando seu som, acrescentando elementos de disco music e power pop no som. E tal mistura rendeu ótimos discos, sendo "Parallel Lines", de 1978, o exemplo mais conhecido e bem-sucedido comercialmente falando, trazendo os principais hits da carreira discográfica do Blondie, na época formado por Chris Stein e Frank Infante nas guitarras, Clement Burke na bateria, Jimmy Destri nos teclados e a musa loira(ça) Debbie Harry nos vocais.

    O álbum começa muito bem, com "Hanging On The Telephone", uma música com um clima ensolarado, onde os principais destaques são a pegada da bateria e as ótimas linhas vocais por parte de Debbie. Na letra, a loira diz estar apaixonada por um cara e pedindo para que ele não a deixe pendurada no telefone, como atestam os versos "Se eu não tiver suas chamadas, tudo dá errado/Eu quero te dizer algo que você sabe há muito tempo". O refrão é mais que empolgante.

    Mas o Blondie ainda mostrava certa veia punk, que pode ser vista em "One Way Or Another", onde a dupla de guitarras imprime a música certa fúria adolescente, enquanto Debbie, em vocalizações que variam do sexy ao rasgado, afirma que vai pegar o rapaz de qualquer jeito, não importando as condições. Essa música marca presença no filme "Show Bar (Coyote Ugly)", comédia romântica onde a protagonista adora tal música e até chega a cantá-la no bar em que trabalha para acalmar uma porradaria generalizada (claro que, se você tentar fazer isso na vida real, você provavelmente receberá uma garrafada na cabeça, mas...).

    "Picture This" evidencia as melodias; aqui é notada uma presença do teclado, além de uma base de guitarra muito cativante, com Debbie cantando docemente que quer figuras de tudo que possa lembrar o relacionamento dela com alguém, uma "moldura sem omissões", e apenas uma visão da pessoa amada. Um dos melhores desempenhos vocais de Harry.

    Um início quase soturno, iniciada por teclados mais introspectivos e batidas cadenciadas. Mas, "Fade Away And Radiate" acaba assumindo ares de balada com os vocais de Debbie Harry, e facetas de experimentalismo com as guitarras inusitadas e as melodias viajantes de teclado. Não chega a tornar-se de um vôo megalomaníaco progressivo, pois ainda tem estrutura de uma canção pop. Pérola que não costumam comentar, mas que não deixa de ser perfeita.

    O vigor do lado rock do Blondie volta em "Pretty Baby", intercalada entre momentos mais agitados e intercessões melódicas, culminando em um refrão que faz da música o punk mais açucarado já gravado. TrÊs minutos de dançante declaração amorosa, onde Debbie mostra todo seu lado sentimentalmente ingênuo. De fato, perfeita para um início de namoro.

    "I Know But I Don't Know" é iniciada por melodias grudentas de teclado até que se revela uma música inteiramente grudenta. Os riffs simples entram no ouvido e agradam de imediato, e Debbie canta uma letra muito ritmada e cheia de repetição de palavras. Sabendo ou não sabendo, o Blondie afirma que tudo é um mistério tracando com chave. E que eles se importam, ou não.

    Melodias desafiadoras abrem "11:59", onde o eu-lírico se compara a um fugitivo que quer ficar vivo por hoje, em uma letra que dá margem a várias interpretações, pelo número de metáforas apresentadas em uma música só. O instrumental é cheio de teclados sintetizados e uma sessão rítmica muito forte (aliás, será que os Strokes quiseram fazer uma citação subliminar a essa canção no seu hit "12:51", uma canção que diz que a hora passou e que o eu-lírico está velho?).

    "Will Anything Happen?" tem uma dos riffs mais pesados do álbum, mas é combinado com teclados angulosos e a grande performance vocal de Debbie. E ela se mostra insegura, perguntando pro seu namorado se, quando ele fizer sucesso e ir longe devido aos seus talentos musicais, e se veria ele de novo. O título da música é repetido à exaustão. Canção bem-vinda em qualquer festa roqueira.

    Rock açucarado, onde os vocais açucarados e teclados doces combinam com a eletricidade abafada da guitarra. Esta canção leva o nome de "Sunday Girl", onde é contada uma história em que a garota namora com um cara aparentemente machista, que manda ela ficar em casa e parar de chorar, pois ela quer sair e encontrar com a galera. Os pratos da bateria também são muito evidenciados.

    A perfeita solução de rock, pop e disco produziu o maior hit da carreira do Blondie: "Heart Of Glass", que apesar de ser mais conhecida como hino de rapazes alegres e ser tocada à exaustão, não deixa de ser excelente. Cantando em falsete, Debbie conta a história de um amor se desfacelando, comentando que ela mesma tinha um coração de vidro, e que tudo foi tomado pela desconfiança, provocação, adoráveis ilusões e a impressão de estar sendo usada. Acompanhada de um vocal masculino, mrs. Harry torna o refrão irresistivelmente atraente. Quase seis minutos que não enjoam.

    "I'm Gonna Love You Too" é uma das melhores do álbum. Debbie prevê todos os movimentos do seu namorado, e logo em seguida diz a razão de saber tudo isso: "você vai dizer que sente minha falta/você vai dizer que vai me beijar/você vai me dizer que me ama/porque eu vou te amar também". Na parte musical, o rock volta, e com rapidez, com guitarras viris, teclados em brasa e uma performance nitidamente empolgada da vocalista. Os acompanhamentos vocálicos do instrumental com a voz são uma das coisas mais grudentas que uma banda já conseguiu fazer.

    Fechando o álbum, temos "Just Go Away", esta já apelando para o powerpop, ou seja, um pop cheio de guitarras. O refrão é o ápice da música, que vai escalando para explodir em um desempenho vocal impressionante por parte de Harry. E para se despedir do ouvinte, a letra trata sobre separação, pedindo para ele não ficar triste, não ficar mal, não ficar louco, apenas ir embora.

    Admiradores de boa música pop certamente adoram o Blondie. Tietes da cena roqueira nova-iorquina dos anos 70 também. Ouvintes mais mente aberta e menos adeptos de restrições e radicalismos, idem. Ao longo dos anos, o Blondie sempre soube como fazer música comerciável e vendável, mas ainda assim boa. A química e as fórmulas do Blondie ainda nos dariam discos excelentes como "Eat To The Beat", entre outros, mas se você quer começar a ouvir a banda, comece pelo seu maior cartão de visitas. De um jeito ou de outro, ouça!

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    posted by billy shears at 3:11 PM | 7 comments

    quinta-feira, abril 05, 2007
    Richard Hell And The Voidoids - Blank Generation


    "Que fique registrado a quem possa interessar que não acho que a vida seja um mergulho perpétuo. E embora seja genuinamente amedrontador, não acho que o fascínio de Richard Hell pela morte seja nada além de uma estupidez... E todos os Richards Hells são uns bostas que desperdiçam uma dádiva preciso muito alegremente e não merecem que lhes seja dado nenhum crédito, mas acordados de sobressalto de alguma maneira violenta. Ou isso ou então serem espancados e mandados pra cama." (Lester Bangs)

    "'Blank Generation' é um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos. E eu achava Richard Hell - faça-me o favor, quer dizer, ele era o macho ideal. Sempre tive muito medo de falar com ele porque ele era cool demais. Ele era Bob Dylan, cara. Ele era como que de outro planeta pra mim. Ele tinha um visual tão bárbaro; quer dizer, vamos ser francos, ele era um pedaço de homem e um cara bonitão. Ele era realmente quente, realmente louco, no palco também, pode crer. Eu passava por ele e esperava que ele falasse comigo. Oh, sem chance, era demais. E as pessoas diziam: 'Como é que Richard pode fazer isso com você? Você andou com Mick Jagger, viveu com Todd Rundgren, você conhece todo mundo no universo e fica intimidada com Richard Hell'? E eu dizia: 'Não sei, não sei'" (Bebe Buell)

    "Achei Richard Hell simplesmente incrível. De novo, eu acabava comprando a idéia de mais uma vítima da moda. Não se tratava de alguém vestido de vinil vermelho, com lábios cor-de-laranja berrantes e saltos altos. Era um cara todo desmantelado, arrastado, parecendo que tinha recém-rastejado para fora de um bueiro, parecendo que estava coberto de lodo, parecendo que não dormia há anos, parecendo que não se lavava há anos e parecendo que ninguém dava a mínima pra ele. E parecendo que na verdade ele não dava a mínima pra você." (Malcom McLaren)

    Richard Hell é um dos famosos "quem" que circulam no mundo do rock. Figura influente no mundo punk que passou pelos Heartbreakers de Johnny Thunders, no Television, escreveu algumas canções com Dee Dee Ramone, arrebanhou algumas dezenas de fãs entre músicos, jornalistas e groupies e foi um dos criadores da estética punk - afinal, o famigerado Malcom McLaren vestiu os Sex Pistols como ele, e pediu para escreverem canções fortes e impressionantes como as dele.

    E não pára por aí; Richard também foi o responsável por inventar o termo que definiria a primeira fase do punk rock, a "blank generation", "geração em branco". Não no sentido de ser uma geração vazia, mas de ser uma lacuna que possa ser preenchida ao bel-prazer. No caso desses americanos sem futuro nem diversão, quanto mais drogas, sexo e piração existisse, melhor seria preenchida esse espaço.

    E para expressar tudo isso, Richard armou-se de seu baixo e seu modo de cantar zombeteiro, os guitarristas Robert Quine e Ivan Julian e o baterista Marc Bell, que já tocara no power-trio Dust e que poucos anos depois se juntaria aos Ramones, mudando o nome artístico para Marky Ramone, e formou sua banda de suporte, os Voidoids. Desde aquela época já era um artista um tanto incomum, declarando não sentir aquela química entre banda e público que todos dizem que sentem, não gostar da vida na estrada, não gostar de ir em concertos, rindo-se de si mesmo por achar que já fora um rockstar e músico profissional, discutindo Niezstche com o jornalista Legs McNeil em entrevista à revista "Punk", chamando o público britânico de desprezível, debilóide e irritante... O cara sempre soube como ser um professor em matéria de mau humor. E, ironicamente, todo mundo achava que Richard era uma estrela...

    E em 1977, Richard Hell and The Voidoids lançavam seu desbafo em forma de disco. "Blank Generation" é um testemunho dessa geração que não teve medo nenhum ao trilhar o caminho dos excessos, da autodestruição e do niilismo. A versatilidade do álbum surpreende até hoje; letras anárquicas e existencialmente decadentes (tipo Baudelaire) deitam-se sobre referências de New York Dolls, Stooges, Television e até jazz, somando isso a vocais voláteis e as guitarras impressionantes de Bob Quine . A bateria também tem um belo papel aqui, mostrando que Marc só tornou-se um baterista menos técnico ao entrar nos Ramones.

    O álbum começa então com "Love Comes In Spurts", com seu riff rolando ladeira abaixo para dar origem a um punk furioso com vocais tanto zoados quanto rugidos. A letra, cheia de segundos e terceiros sentidos, falando sobre uma garota que deixou Richard caidinho, e ele faz sua sacana banda gritar que "o amor vem em jatos" (leia com malícia, inocente leitor)... Mais ou menos dois minutos de safadeza, o que poderia caracterizar a música como uma rapidinha...

    "Liars Beware" tem um início com um instrumental elaborado, mas em poucos segundos a banda já transforma a música em algo rapidíssimo, com uma bateria que parece uma sequência de chutes no peito, somando isso com a guitarra maníaca de Quine. O vocal de Richard, meio falado, meio cantado, e às vezes até meio latido (!) tem um tom cínico que só vendo, e o cara esculacha alguém na letra de todas as formas possíveis, até terminar a canção com um berro demencial.

    As guitarras de "New Pleasure" lembram a antiga banda do companheiro Johnny Thunders, New York Dolls, e olha que a música não dura nem dois minutos. A guitarra realiza paradas quando Hell canta, mas quando ele convida a garota para sussurrar, as guitarras vêm acompanhar junto os vocais do maroto cantor. O momento mais cinquentista do álbum.

    A porradaria só é interrompida agora, com "Betrayal Takes Two", que se for pra caracterizada como uma balda, digamos que é a balada mais insolente que já existiu... Tanto em questão de letra como na sonoridade que a banda imprime a uma música mais lenta. Uma balada com espamos guitarreiros confraternizando com melodias bregas e uma grande cozinha. Claro que quem deseja algo mais previsível vai odiar Richard Hell infernizando sua vida (é... esse trocadilho foi horrível!).

    O rock dos anos 50 volta em "Down At The Rock And Roll Club", música com intercessões melódicas que explodem em rugidos, berros e vocalizações para lá de zoadas. A letra, divertidíssima assim como a música, conta a ida de Hell a um clube de rock, encontrando uma garota de dotes privilegiados e algumas substâncias ilícitas para dar um relax... A guitarra de Quine tem aqui um de seus melhroes desempenhos, enchendo o ouvido com volume abusivo.

    "Who Says?" tem uma estrutura caótica e inusitada, com momentos pulantes combinados a momentos esquizóides. E com toda a sua demência, Richard Hell pergunta para quem estiver perto para ouví-lo "quem foi que disse que é bom estar vivo?". O humor sonoro dá suporte a lírica ácida e questionadora, que cutucava com a ponta da bota todos os hippies, otimistas e qualquer um que estivesse de bom e pueril humor.

    Um dos maiores hinos da carreira de Richard, senão o maior, é a faixa-título, "Blank Generation", uma mistura de punk com músicas de estrada ouvidas pelos beatnik, e Richard sempre fazendo questão de imprimir na canção um tom maníaco. A letra conta da vida de alguém muito ferrado na vida, mas que acha tudo isso fascinante, pois como o próprio autor observa, "eu pertenço à geração em branco/e eu posso aceitar ou deixar isso toda hora/eu pertenço à geração em.../e eu posso aceitar ou deixar isso toda hora".

    "Walking On The Water" mostra a quem estiver ouvindo o poderio de Marc Bell no comando das baquetas. Uma canção cadenciada, de ritmo lento, mas de peso forte. Richard consegue tirar todas as canções do convencional com o seu vocal - esta ganha por insolência, e pela overdose de de guitarras ao seu final.

    Hell prega outro susto. "The Plan" é uma canção de melodias ensolaradas mas de bateria bastante inquieta. Ouvimos um dos melhores solos do álbum aqui, com a banda nos mostrando uma nova textura do seu som. E Richard então faz uma canção de amor, vejam só. Mas ainda assim destilando todo a ironia que sempre lhe foi habitual.

    O álbum encontra seu final com os oito minutos de "Another World", como uma versão mais melódica, ou ao menos mais condensada e direcionada, do que os Stooges aprontaram no álbum "Fun House". "Apagando meu rosto/Eu quero tanto você/Eu quero ser você/Isso é fútil, isso é triste"... "Eu poderia viver com você em outro mundo". Robert Quine nos dá então seu melhor solo - é ouvir e ter um orgasmo auditivo ouvindo. O chão chega a tremer com o som saindo pelas caixas. Rock And Roll totalmente imprevisível é isso aí.

    Os Voidoids acabariam em 83, mas ainda teriam tempo de lançar um segundo álbum um ano antes de acabarem, mas sem o brilho da sua estréia. Hell ainda daria uma força para os Outsets nos anos 80, e nos anos 90 lançou um EP solo, um disco em dupla com Robert Quine, e um disco com a banda Dim Stars, banda que montou com Thurston Moore do Sonic Youth e dois outros músicos mais obscuros. Mas o atestado definitivo do peculiar cantor encontra-se nesse álbum de 1977. E pergunto ao leitor, por que não preencher uma lacuna em branco na sua cabeça com muita insolência e nenhuma delicadeza? E olha que Hell nem exige fidelidade - você pode adorá-lo e abandoná-lo sempre que quiser. Ele é assim conosco também.

    "Fui rotulado de niilista e solipsista, que tive que olhar no dicionário. Significa alguém que está completamente envolvido em si mesmo. Ha, ha, ha. Faz sentido."
    (Richard Hell)

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    posted by billy shears at 5:11 PM | 8 comments

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